segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Evidentemente governador...evidentemente

Afirma-se que se trata da maior exposição de animais da América do Sul.
Num espaço latifundiário, onde o capitalismo está representado pelos senhores do agronegócio, são expostos animais da mais variadas espécies, porém não qualquer um, somente aqueles cotados no reino animal por sua genealogia de origem comprovada, pela mais fina linhagem hereditária, estirpes evidenciadas por pedigree.
Lá estão pequenas e engraçadinhas, espécie dos mamíferos roedores, as chinchilas. Garanhões, sempre muito bem tratados, formosos e fogosos, cavalos prontos para a reprodução e com isso a satisfação sexual de muitas éguas. Touros de registro ancestral valioso, produtores de semens de imensurável valor no mercado. Vacas portadoras de embriões de grande valia, todos também estão lá.
A animália é tratada de forma requintada, com muito carinho. O embelezamento para desfile em passarela, para exibição pública necessita de banhos preparados com ervas aromáticas, utiliza-se escovas hidratantes e luzes, cuidados exageradas que vão de encontro à livre natureza, o modo de vida liberto do animal, sem frescuras.
Todo esse desvelo custa em médio ao proprietário do animal R$ 1 mil durante o evento de nove dias, bem mais do que recebe o servidor (R$ 600,00) durante o mês.
Apesar do ambiente próprio, quase exclusivo para animais e para o público em geral, há espaço chique. Local para bandinha executar músicas e até lugar para uma dançinha, somente para autoridades, em meio aos efusivos sorrisos.
No dia seguinte, meio constrangida, a autoridade informa o parcelamento de 600 reais, sem a necessidade de uma informação tardia. Com antecedência os parcelados servidores tristemente já conheciam a medida tomada pelo governo.  
 O reino animal da exposição, privilegiado e sofisticado, tem em suas cercanias um animalesco mundo cão. Gente em vivência de pleno sacrifício, com sentimento da dignidade perdida, brios afetados, a decepção, o agastamento, a irritação por profissionalismo não reconhecido. Seres humanos parcelados por 600 reais.
Em consequência, dificuldades financeiras, tormentosas contas a pagar não se sabendo quando serão pagas. Fica para trás o aluguel, a fatura do cartão de crédito que naturalmente será pago quando o salário for completado com exorbitantes juros, há a escolha em pagar a conta da luz ou de água, as duas juntas, impossível. Tem também a parcela do empréstimo consignado, pagamento inadiável. Acabou o dinheiro, o amor próprio, trocados pela melancolia, por mágoas e ressentimentos.
Evidentemente que acabou. Evidentemente que nada pode ser feito. Então, evidentemente o que se faz? Governador, evidentemente, que conforme sua determinação nada pode ser feito para quem é parcelado. Evidentemente.
Pessoas que insistem na repetição de determinadas palavras demonstram poucos recursos de linguagem, escassez com as palavras, assim protagonizou-se o governador - desde o início de sua campanha - quando tenta entabular algum argumento.
Pode ser uma estratégia persuasiva, um recurso que se utiliza o falante na tentativa de construir seu discurso. Muitas vezes o improviso provoca a repetição de determinada palavra, no caso evidentemente.
Evidentemente que os servidores parcelados aguardam a evidente complementação de seus salários o mais depressa possível, hoje dia 11, evidentemente pela cronologia deverá ser saldada mais uma parcela.  





    

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